Walden ou a Vida Nos Bosques de Henry Thoreau

Uma opinião aprofundada sobre Walden e o que significa abandonar a humanidade sem se abandonar a si mesmo.

Walden ou a Vida Nos BosquesWalden ou a Vida Nos Bosques de Henry David Thoreau
A minha avaliação: 3,5 de 5 estrelas

Sinopse: Publicado em 1854, este pioneiro livro de auto-descoberta narra a experiência de dois anos de isolamento de Thoreau no lago Walden (Massachusetts, EUA) e inclui referências a temas como mitologia, história, poesia, carpintaria, fauna e flora. Acima de tudo, são as ideias do autor quanto à melhor maneira de viver uma vida simples, em harmonia com a Natureza circundante e, portanto, exterior, mas especialmente com a nossa própria e intrínseca natureza humana. Este livro é considerado tão revolucionário e anti-capitalista como o Manifesto de Marx e Engels, embora aqui a resposta dependa mais das acções individuais, da nossa mudança interior, do que da mobilização popular.


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Walden é o nome do lago ao pé do qual Thoreau constrói a sua casa para lá viver nos anos seguintes. O lago é venerado por ele, tanto as correntes, os ventos, como a fauna e flora destes. O lago é, acima de tudo, o protagonista desta autobiografia.

Thoreau abre o livro fazendo uma crítica à sociedade, no termos em como consomem, o que consomem e o porquê de consumirem o que consomem.

Em Walden, ele faz uma crítica sobre a sobrevalorização da superficialidade sobre as capacidades do indivíduo enquanto trabalhador dotado de um corpo capaz de fazer e atingir tudo o que precisa para sobreviver.

Não ficando por aí, tece também uma crítica sobre a futilidade da moda em contraste com a valorização da integridade moral e ética do homem. O seu grande objectivo neste capítulo é demonstrar como o menos é mais; vivendo uma vida mais simples um homem sente-se mais completo.

“A vida que os homens tanto prezam e consideram como bem-sucedida é apenas uma entre muitas. Por que razão exageraríamos o valor dessa existência em detrimento das outras?”

Thoreau tem uma vasta bagagem literária que o torna um homem articulado e escolástico. Ele relaciona a sua vivência com as reflexões dos gregos ou do sagrado livro de Harivansa.
Para ele, ser simples e humilde tem muito valor, e, por outro lado, quase castiga verbalmente as pessoas de instrução reduzida ou inexistente por não terem os mesmos conhecimentos que ele em literatura ou filosofia.

Ele acredita que o entendimento sobre a vida e vivência é limitado para outras pessoas por não terem tido a oportunidade de poder estudar os escritos nas línguas originais, maioritariamente grego, sânscrito ou latim.

“O homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir.”

A forma como gaba a sua capacidade de interpretação literária torna-se um elemento que me tira de certa forma do sério ao longo do livro. Ele parte do princípio que um trabalho reduzido jamais terá algo de bom a ser extraído dele, sendo, portanto, completamente inútil o esforço. Isto, na minha opinião, denota um certo complexo de superioridade.

Mais tarde, passa a relatar os sons que ouve em volta da sua casa e como o fazem sentir em comunhão com a natureza, sejam perdizes, corujas, anfíbios, ratos do campo ou pardais primaveris. Ele fala bastante também dos ruídos que o lago faz ao longo do ano: o burburinho da água, o abrir da fenda da água congelada que se expande pela terra como um trovão que a rasga em dois à chegada da primavera e o borbulhar da exalação dos peixes à superfície da água. Aqui ele descreve como mesmo vivendo na natureza, nunca se está realmente sozinho.

Walden ou a Vida nos Bosques
Reconstrução da cabana onde Thoreau viveu por dois anos. Créditos: Esperdy.net

No capítulo Solidão ele compara a forma como o ser humano pode se sentir sozinho apesar de estar rodeado de pessoas, mas que esse problema não o acomete pois ele nunca está sozinho, graças aos seus pensamentos.

Para ele a solidão não é intrinsecamente má, mas sim um processo de autodescoberta.

“Se todos os homens vivessem tão simplesmente como eu naquele tempo, estou convencido de que não haveria roubos sem assaltos. Estes só ocorrem nas comunidades em que alguns têm mais do que é suficiente enquanto outros não têm o necessário.”

Para quem conhece mais ou menos o meu posicionamento político e ético sabe que eu vejo vários problemas com esta linha de pensamento. Não acredito que tudo seja assim tão preto no branco.

Talvez, por Thoreau viver noutros tempos onde havia bem menos de metade da população a povoar o nosso planeta, ele achasse que a matemática do roubo e violência fosse assim tão simples de resolver. Mas creio que, nos tempos que correm, todos acreditamos que nada pode ser resolvido tão simplesmente.

Hoje em dia reconhecemos problemas que impõem uma barreira a isso, servindo como exemplo a cleptomania, que não precisa de um motivo para ocorrer.

Isto que acabei de descrever encaixa-se em certas situações em que Thoreau dá a sua opinião que hoje é algo polémica e seria, provavelmente, considerada retrógrada pela maior parte de nós. Obviamente, os tempos eram outros, portanto, exercendo da compaixão que aprendi ao longo da vida, tento colocar-me no seu lugar em 1848. Não nos devemos esquecer que o seu pensamento assentava sobretudo numa visão marxista-leninista. Não entendendo o suficiente de política, fico-me por aqui.

Debruçando-se sobre os lagos, isto é, os lagos presentes naquela zona de New England, ele mostra a necessidade de os manter tão inconspurcados quanto possível, dando a entender que naquela época a manipulação humana já tinha conseguido estender os seus tentáculos sobre aquela beleza frágil.

No mesmo capítulo ele conta-nos que fauna e flora é possível encontrar nos lagos Walden e Flint, e como ela tem vindo a diminuir graças à forma como o homem tem manipulado, caçado e pescado aquelas áreas.

“Que ganhar a vida não seja o teu ofício, mas o teu desporto. Desfruta da terra, porém, sem possuí-la. Por falta de fé e de iniciativa, os homens estão onde estão, comprando e vendendo, desperdiçando a vida como escravos.”

Fotografia do lago Walden durante a estadia de Thoreau. Créditos: arquivo pessoal

A dieta também é um assunto que lhe preenche os pensamentos, acreditando, apesar de comer carne, que o futuro da humanidade é não depender da carne animal, por achar isso primitivo e animalesco, reduzindo os animais a um estatuto quase e objecto. Portanto, na sua visão, não estará a respeitar os animais ao deixar de comê-los mas, querendo sim, elevar-se ao estatuto do divino e imaculado.

O seu puritanismo por vezes toma contornos religiosos que, de certa forma, não encaixam bem na pessoa que sou, mas que em nada afecta a importância da mensagem que ele quer passar.

Uma grande discrepância que encontrei na sua linha de pensamento foi o facto de assinalar a importância de ensinar as crianças a caçarem animais indefesos quando, por outro lado acredita, que o futuro da humanidade evoluída é deixar de se alimentar de animais. Não seria mais útil então ensinar autodefesa e como usar essas armas para se defenderem em caso de ataque?

O bom desta obra, é, sobretudo, que nos inspira a sonhar com a vida livre na natureza, dar valor à conexão que o homem pode resgatar com esta, a essência presente na simplicidade do minimalismo enquanto estilo de vida.

A narrativa dele é rica e detalhada, com um vocabulário muito acima das expectativas da época. Thoreau era um homem de boas famílias e isso é visível na sua escrita. Walden quase se materializa diante dos nossos olhos graças à sua desenvoltura frásica emocionante e bela.

Na conclusão, ele opina sobre o facto de o homem ser um só com o universo e que impor barreiras não é uma forma de impedir a natureza de entrar e prosperar no seu território que ele criou fisicamente com vedações e muros. Não é preciso apenas explorar o mundo exterior mas também descobrirmo-nos a nós mesmos enquanto passamos tempo sozinhos. Somos um mundo por descobrir.

Apesar de algumas partes com as quais não concordei, dei o benefício da dúvida. Walden é, e continuará a ser, um hino ao nosso chamado à natureza. Vale sempre a pena ler.

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  • Bárbara

    Quero imenso imenso ler este livro há já vários anos! Mas entretanto nunca o comprei (portanto assumo que não estará para breve). Tudo o que leio sobre ele dá-me a entender que será lifechanging e inspirador 🙂

    http://barbarareviewsbooks.blogspot.pt/

    • Subverso Literatura (Subverso

      Sim, definitivamente é! Mas é uma leitura que por vezes é preciso prestar mais atenção e consome um pouco mais o cérebro do que a típica ficção. Ele adiciona muitos elementos do folclore ou mitologia, citações em latim, etc. Às vezes é complicado acompanhar. Vale a pena, mas para quem está a começar não é má ideia ler primeiro Into the Wild de Jon Krakauer, que é absolutamente dos meus livros favoritos.