United Five de Fernanda Lemos

Opinião da obra United Five de Fernanda Lemos.

United Five

United Five de Fernanda Lemos

A minha avaliação: 1 de 5 estrelas

Lillian Campos é uma adolescente normal, com o sonho de um dia se tornar escritora. Sophia, a sua melhor amiga, tem o sonho de ganhar um lugar na representação de Hollywood. Ambas têm algo em comum que as aproxima bastante: o seu amor pela boysband britânica United Five.

Um dia a oportunidade surge através de um concurso onde as concorrentes precisam redigir uma entrevista à banda de forma criativa e inédita. Lillian e Sophia concorrem e ganham. Segue-se a preparação para a viagem e a dupla quase perde a viagem para o concerto. Chegadas lá, as amigas divertem-se no concerto e ficam ansiosas pelo momento em que podem fazer as perguntas da entrevista que propuseram no concurso. A sua surpresa aparece, porém, quando o representante da revista que lançou o concurso as obriga a fazer outras perguntas que não as suas. Lillian e Sophia ficam estarrecidas e recusam-se a aceitar essas condições.

United Five de Fernanda Lemos

Sabendo do segredo de um dos elementos da banda, Lillian esquiva-se das perguntas pessoais. Sem autorização, ela altera as perguntas para as que ela tinha planeado e assim começa uma longa amizade com a banda.

Sophia apaixona-se pelo seu ídolo, Oliver, enquanto ele também se aproxima dela. Lillian aproxima-se de Noah, mas as coisas não são assim tão fáceis. Isto é apenas o início da luta entre manter o anonimato e manter uma paixão à distância.


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A premissa da autora era simples, porém interessante. O facto de famosos viverem uma vida inatingível aos demais é sempre motivo de muito esforço por parte de quem quer lá chegar. É, também, motivo de muita curiosidade para quem observa de longe. Tudo o que autora conseguiu foi ter uma boa premissa. Apenas. A ideia, embora cativante, foi um remate à trave em todos os sentidos.

Tudo o que vem a seguir é uma lista de problemas que a história tem e que seriam facilmente evitáveis.

Comecemos pelos problemas estruturais, nomeadamente a narrativa. As descrições e diálogos são pueris. Sim, certamente referimo-nos a duas adolescentes, mas existe uma discrepância fenomenal na forma como um adulto escreve um diálogo de duas adolescentes e como uma adolescente escreve o diálogo de duas adolescentes. O problema não está na longitude das descrições e diálogos, mas na forma como são construídos.

Cada parágrafo revela muito da inexperiência da autora. Deveria ter escrito mais livros antes de ter lançado um.

Toda a escrita é um exercício de experiência, e o nosso primeiro livro concluído nem sempre é o melhor. Como sei? Já cometi esse erro.

Não se ficando por aí, existe também a necessidade de endereçar a inexperiência da autora com a língua inglesa. Definitivamente não sou uma catedrática na matéria, mas tenho lido inglês diariamente nos últimos 15 anos da minha vida, e sei reconhecer quando a escrita tem demasiadas expressões coloquiais, erros ortográficos e de concordância, o uso excessivo de advérbios de modo, entre outros. Algumas tentativas de recurso estilístico não funcionam quando a autora faz comparações com aquilo que já é óbvio por natureza. Este é um destes casos.

A United Five faltam também elementos como recursos estilísticos adaptados à língua inglesa, assim como expressões tipicamente americanas que poderiam adicionar conteúdo à história e dar-lhe personalidade.

Algo que também me incomodou particularmente foi o auto-elogio indirecto feito pela autora nas primeiras páginas do livro, ao comparar a escrita da narradora com a escrita de Jane Austen. Não tenho muita tolerância para a arrogância quando ela é injustificada.

Quanto ao desenvolvimento da história também existem muitos problemas. Acontecem situações irrealistas, escritas de uma forma que me fazem lembrar as minhas primeiras tentativas de ser escritora (que caíram por terra e desisti de o ser; mas isso é discussão para outra altura) e que, sob o olho de um leitor mais experiente, parecem quase a primeira tentativa de construir um castelo de cartas. Não funciona.

Não existe um prelúdio no desenvolvimento narrativo que nos faça afeiçoar-nos sentimentalmente às personagens. Somos simplesmente atirados para o meio da narrativa sem dó nem piedade. Sem percebermos melhor quem é Lillian e por que motivo deveríamos nos preocupar com o seu sonho.

Como não podia deixar de ser, também existe um vilão na história. Neste caso, uma vilã: a nova namorada do pai de Lillian. É uma vilã típica e básica, já ultrapassada. O seu objectivo é casar com o pai de Lillian e ficar-lhe com o dinheiro. Já vimos isto centenas de vezes, certo? E não há problema nos clichés, nunca. O problema é na forma como o cliché é executado.

Não parando por aqui, tenho também a adicionar que não experimentamos no livro quais as vantagens e desvantagens da vida de se ser famoso. Temos apenas um vislumbre, uma centelha do que isso é. Mas a autora parecia estar com pressa, parecia não querer saborear os momentos em que tinha oportunidade de demonstrar os seus dons narrativos. Tive dificuldade em acabar. Só conseguir terminar porque queria mesmo saber como acabou. E mesmo assim conseguiu decepcionar-me ainda mais. Não existe tempo na descrição para apreciar as pequenas coisas. Tanto boas quanto más. Elas simplesmente são despachadas umas atrás das outras como se a autora estivesse a cumprir limites. Os momentos em que ela teve a oportunidade de apelar ao sentimentalismo do leitor foram desperdiçados da pior forma.

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