Livros Maçadores: Quando é que Devemos Desistir?

Ontem eu tinha finalmente acabado de ler The Master and Margarita (cliquem no link para ler a minha análise, análise esta que é tão negativa e curta que decidi não publicar aqui no blog) quando soltei suspiro de alívio e pus-me a pensar se era proveitoso e útil ler livros que parecem arrastar-se sem fim. Não gostamos da história, os personagens são desinteressantes ou bidimensionais, o espaço físico, mental e psicológico não nos cativam minimamente mas, mesmo assim, num esforço heróico, lutamos contra a vontade de desistir, mesmo que demore uma eternidade a acabar. Por quê?

Eu considero-me uma pessoa persistente no que toca a livros. Quando deixo um a meio sinto que estou a fazer batota. Sinto que estou a trair as ideias que defendo e que talvez esteja maçador agora, mas se é um livro aclamado e adorado, provavelmente estou a ler mal ou, o mais provável, é que ele melhore perto do fim, justificando todas as horas de provação literária que passei. Quando desisto de um livro é porque li as primeiras duas páginas e senti que não estava emocionalmente situada para aquele tipo de leitura no momento. Leio o suficiente para perceber que não é aquilo que eu quero. Se posso trocar para algo que será mais proveitoso e mais prazeroso, por que não aplico essa mesma regra aos livros que sei apenas a meio que são uma péssima ideia?

Goodreads é a rede social para leitores na qual eu geralmente decido ler este ou aquele livro. Tenho amigos, recebo recomendações deles e baseadas naquilo que já li e gostei, e normalmente acabo por tender para os clássicos porque, regra geral, a ficção contemporânea é mentalmente muito fácil de digerir. O meu cérebro gosta do desafio. Por isso, senti-me quase intelectualmente deficiente quando cheguei a meio de The Master and Margarita e estava a odiar cada vez mais. Por volta de 1/3 do livro a história tinha começado a deixar de fazer sentido – não nos esqueçamos que é, apesar de tudo, um livro do percursor do realismo mágico, escrito algumas décadas antes de Cem Anos de Solidão, e eu continuei a lutar para que aquilo talvez fossem metáforas da Rússia Estalinista e do quotidiano atribulado do comunismo ditatorial de Stalin que eu não estava a conseguir compreender, mas não conseguia ver onde é que um gato gigante chamado Behemoth, acompanhado de Satanás e um homem com um pince-nez na ponta do nariz teriam em comum com um regime político. Então, por fim, resolvi desistir e continuar a ler como se fosse uma comum história de ficção generalista, sem julgamentos, apreciando apenas os acontecimentos conturbados e fisicamente impossíveis.

Quando desistimos de um livro, seja qual for o final, não será útil, não tratá nada de bom para a nossa edificação pessoal e nem nos recuperará tempo algum que gastámos a ler. E, no entanto, sou pecadora da excessiva persistência em continuar com fé que o livro melhore no fim. Então: vale a pena ler um livro que detestamos? Ou é uma daquelas situações em que desistir é o melhor?
Já persisti tantas vezes que ontem cheguei à conclusão que devemos desistir ao mínimo sinal de um bocejo furtivo derivado do livro. Esperar que o livro melhore a partir daí é jogar roleta russa com o tempo (uma conveniência inesperada e não planeada do texto). A partir daí não virá absolutamente nada de bom e será uma perda de tempo. Um mau livro, isto é, um livro que não partilha semelhanças com a nossa forma de pensar ou com os nossos gostos, jamais compensará pelo tempo que perdemos com ele. O tempo é a única moeda intransponível e irrecuperável. É-nos arrancado quer queiramos quer não, e não adiantará de nada a estoicidade no prosseguimento de uma actividade que estamos a odiar.

Portanto, deixo aqui redigido, que de hoje em diante não me sentirei mais moralmente obrigada a terminar livros que me fazem lembrar a provação de Atlas. A vida é demasiado curta para má literatura.

Leiam. Mas leiam o que gostam.

Atentamente,
Uma leitora que já perdeu demasiado tempo com maus livros.

  • Se não gosto de um livro, paro e começo outro.
    Não perco tempo com coisas que não me dão prazer (já basta as obrigatórias). Faço o mesmo com os filmes.

    • Íris Santos

      Que livros te lembras de ler e não ter gostado?
      Obrigada pelo comentário 🙂