De Lolita e Outros Demónios

Podem ler a minha análise completa aqui.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. O meu pecado, a minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.

Lolita é, sem menor sombra de dúvida, a obra mais famosa de Vladimir Nabokov, e uma das mais controversas da história da literatura. Existem muitas outras mas esta serve para o propósito sobre o qual me vou debruçar.

Lolita de Vladimir Nabokov

O romance, no sentido literal e literário, conta o desenvolver da relação de Dolores Haze e Humbert Humbert. Dolores, a quem Humbert apelida com muito carinho como Lolita, é uma menina pré-adolescente quando ambos se conhecem. Humbert apaixona-se por Lolita ao ponto de se casar com a mãe desta para poderem ficar mais próximos.

Após um acidente que mata a sua mãe (não entro em pormenores para não arruinar a história a quem ainda não a conhece), Lolita e Humbert vivem o romance das suas vidas. Seria uma situação nada mais do que normal, não fosse ela ter 11 anos e Humbert um professor de meia-idade com uma fixação por meninas após a morte da sua jovem namorada quando ele tinha a mesma idade.

Esta obra levantou questões, arrancou suspiros de sobressalto, foi banida em vários países, obteve uma reputação duvidosa. Lolita tornou-se um marco tão grande na literatura que a própria expressão lolita é, hoje em dia, usada para descrever meninas pré-pubescentes que provocam desejo e atração sexual em homens mais velhos, também conhecidas como ninfas.

Vivemos numa sociedade que condena relações ou a simples conceção de ideia de que um homem mais velho se possa apaixonar e nutrir pensamentos de caráter sexual por uma mulher não apenas com idade para ser sua filha, mas também menor de idade. Também não é aqui o meu objetivo dizer o que a sociedade deve ou não condenar. Limito-me a suspender o meu julgamento durante a realização deste artigo.

Escrevo este artigo de opinião sob o ponto de vista de leitora preocupada com a reputação literária – e não enquanto pessoa – de Vladimir Nabokov após a publicação desta obra.

Se analisarmos a obra de uma perspectiva distante e esquecermos por alguns momentos que fazemos parte da grande espécie homo sapiens sapiens, poderemos ver que a prosa de Nabokov não só é peculiar como é de uma rara beleza. Eu costumo pedir às pessoas para lerem as obras na língua original sempre que possível, pois conseguiremos aproximar-nos muito mais da intenção que o autor pretendia transmitir.

Alguns exemplos de citações retiradas do livro na língua original (inglês) só se mostram em toda a sua beleza se lidas sem tradução:

 

“And the rest is rust and stardust.”

“E o resto é ferrugem e pó das estrelas.” Não tem a mesma sonoridade nem o mesmo poder prósico em português, pois não? Quando fazemos uma tradução que tenha de ser fiel às rimas tudo se torna muito mais complicado.

 

“Human life is but a series of footnotes to a vast obscure unfinished masterpiece.”

“A vida humana é nada mais do que uma série de notas de rodapé de uma vasta, obscura e inacabada obra-prima.”

A língua portuguesa é lindíssima e tem expressões que são intraduzíveis para outras línguas, como, por exemplo, a palavra saudade. Mas na tradução para qualquer que seja a língua, muitas vezes perde-se a essência do autor, como acontece nos casos em que a tradução muda para outra língua de diferente origem.

Quando o tema é controverso o suficiente para ser banido, as capacidades literárias de contar uma história ficam esquecidas e obliteradas pelos acontecimentos que se desenrolam diante dos olhos dos autores. Estamos no século XXI mas ainda sofremos de muitos tabus que nos impedem de falar de assuntos que consideramos sensíveis como o aborto, pedofilia, canibalismo, homossexualidade, relação não-monogâmicas, entre outras. Fugir da norma é e sempre será uma rebelião contra o sistema.

Esqueçamos por um momento os assuntos que nos deixam afetados e sobre os quais todos temos uma opinião, seja ela baseada em conhecimento académico ou não.

É impossível negar a beleza da narrativa de Nabokov. As palavras fluem sem esforço com um vocabulário rico e ainda assim acessível à maior parte de nós. Vejamos um exemplo:

“All at once we were madly, clumsily, shamelessly, agonizingly in love with each other; hopelessly, I should add, because that frenzy of mutual possession might have been assuaged only by our actually imbibing and assimilating every particle of each other’s soul and flesh; but there we were, unable even to mate as slum children would have so easily found an opportunity to do so.”

“De uma só vez, estávamos louca, desajeita, desavergonhada, agonizadamente apaixonados um pelo outro; desesperadamente, devo acrescentar, porque esse frenesi de possessão mútua poderia ter sido atenuado apenas pela inspiração e assimilação de cada partícula da alma e da carne do outro; Mas lá estávamos nós, incapazes de copularmos como as crianças de favela cuja oportunidade tão facilmente encontrariam para fazê-lo.”

É nestes parágrafos de desenvoltura verbal e prósica que a premissa da história faz menos sentido do que a sua execução. E então devemo-nos perguntar: um livro deve ser lido pela história ou pela execução da mesma?

Hoje em dia estamos acostumados a ler, na maioria dos casos, livros fabricados e sustentados pela história, e apoiados sobre, salvo uma exceção ou outra, conhecidos conflitos de narrativa, em que a personagem principal vê-se a braços com um conflito que terá de resolver até ao fim da história. No caso de Lolita Dolores e Humbert vêem-se na típica luta de homem versus sociedade, onde a sociedade não aceita um romance entre uma menina e um homem com idade para ser seu pai.

Neste romance banido em tantos países por ver uma relação tão fora da norma de uma rapariguinha que apesar de ser criança demonstra uma maturidade muito acima da média que oferece sexo em troca de roupa, comida, viagens e eventos, o mais chocante não é o tema em si, pois vemos notícias deste género diariamente. O mais chocante é o abanar de ombros com que quase toda a gente ignora a execução da obra. A narrativa perde a sua coluna vertebral, o seu suporte, e um livro de escrita tão sublime é aniquilado e reduzido às cinzas sufocantes que restam do tema controverso.

Nós somos melhores que isso. Nós temos de parar e refletir sobre a nossa hipocrisia de cada dia. A pedofilia não é incentivada por obras como esta. O próprio Humbert sabia que o que fazia era errado. Lolita também, apesar da sua atitude despreocupada de menina pré-adolescente. E por isso faziam-no às escondidas. Todos sabemos o que a pedofilia acarreta e o porquê de ser vista com maus olhos nas sociedades civilizadas. A pedofilia existe por outros motivos. Por uma condição congénita que se arrasta sub-repticiamente debaixo dos nossos olhos, sob o nosso chão, da forma como educamos os nossos filhos e da forma como deixamos de os educar. Não é incentivado pelos autores. Quando uma condição se manifesta, algo muito mais do que um livro despoletou essa ação.

Portanto, sejamos honestos com nós mesmos e com os outros: Lolita é controversa, mas apenas alguém desonesto pode dizer que é um incentivo à pedofilia.

É um relato fictício, não um manual. Entreguemos as razões da pedofilia aos psiquiatras e psicólogos. 

Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

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