Como o Romance Ficcional Afecta a Psique da Mulher

“Romances podem criar uma má influência sobre as mulheres e levá-las a tomar más decisões no que toca à sua saúde ou relações”, diz um psicólogo britânico.

Dos romances de cordel, aos eróticos, passando pelos platónicos, um dos géneros mais lidos pelas leitoras é o romance que nasce do interesse romântico e sexual.

Os livros ficcionais, incluindo os romances, são escritos através da particular perspectiva de cada autor, levando-o a inserir-se na história através das suas ideias e de como ele percepciona o mundo. Nenhum autor consegue remover-se a si mesmo de uma obra ao ponto de nada restar de si na narrativa. Esta ideia de remoção do ego na história é amplamente ignorada e até mesmo desprezada, sendo, no seu lugar, venerada a importância de o autor deixar em cada obra sua uma parte de si. É assim que é distinguida, regra geral, uma boa obra de uma medíocre. Sem este debruçar do autor sobre a sua própria obra conseguimos perceber que não existe genuidade ou honestidade.

Tendo acesso às massas, os escritores têm nas suas mãos, conscientemente ou não, uma responsabilidade acrescida pelas ideias que fazem passar aos leitores. Não sendo moralmente uma obrigação ou responsabilidade adquiridas, os autores não se sentem na incumbência de colocar um aviso a negrito nas páginas dos romances, “AVISO: IDEIAS ERRÓNEAS DE ROMANCE IDEAL NAS PRÓXIMAS PÁGINAS”, cabendo ao leitor fazer a distinção daquilo que é aceitável e saudável na sua vida e o que é prejudicial. A vida é, afinal, feita de escolhas. Porém, nem toda a gente tem essa selectividade moderada e responsável.

Os autores não são diferentes dos leitores no que toca ao facto de terem crescido num seio familiar com as suas próprias ideias, culturas e costumes. Todos recebemos influências ao longo da vida, não só na sociedade e família onde estamos inseridos mas também pela Internet, televisão e, é claro, livros. Dependendo da nossa jornada na vida, poderemos ter uma maior tendência a deixarmo-nos ser influenciados pelos outros. A influência em si nada tem de errado, excepto quando é uma má influência.

Nos romances está largamente retratada a indiferença no que toca a escolhas saudáveis da mulher. Quando o romance revolve em torno das personagens principais, o que elas fazem pode ser muito importante dependendo do leitor. Um leitor mais ingénuo ou afectado pode levar a peito ou como certo as atitudes da personagem sobre a qual está a ler. Isto pode ir desde aceitar uma relação com laivos subtis de abuso psicológico (ultimatos, ameaças, gaslighting, ciúme asfixiante, etc) e físico (agarrar com brusquidão, empurrar, bofetear) à indiferença com que as personagens se esquecem dos métodos para engajar em sexo seguro (por exemplo, o uso do preservativo). Tratando-se obviamente de um romance, pode ser claro para muitos leitores que o preservativo é apenas um aparte, não sendo necessário na descrição de uma sessão erótica ficcional, mas afecta realmente alguns leitores com pouca experiência, principalmente adolescentes, no que toca a relações românticas e sexuais. As mulheres das gerações actuais e vindouras poderão alimentar ilusões do que é o romance ideal pelo que lêem e consomem em geral, raramente ou nunca tendo a noção de que na vida real os romances não são perfeitos, as pessoas não se completam e as relações acabam. Livrarmo-nos destas ideias tóxicas e dependentes pode ser muito difícil, senão mesmo impossível para a maior parte das pessoas. O irrealismo com que as relações são retratadas é, muitas vezes, a única forma de comunicação do leitor com o espelho da realidade, não tendo acesso à forma como as coisas realmente deveriam ser ou se sucedem.

Na era da Rainha Vitória, quando a religião católica se destacou sobretudo como o pilar sobre o qual assentava a moral da sociedade inglesa da época, obliterou-se grande parte da história e fomos deixados com mitos sobre a vida e visão da mulher sobre a sexualidade desde a Idade Média até então. A teoria com que ficamos é de que a mulher era uma donzela à espera de ser salva, e sendo salva devia se prostrar a qualquer tipo de sacrifício e tortura, afinal era esse o seu papel na sociedade: criar os filhos, sempre sem poder recorrer à ajuda de ninguém. A verdade é muito diferente, como poderão ver no vídeo colocado no link acima, mas os mitos perduram e esta ideia permanece enraizada nas lendas, mitos, contos e histórias que passamos de geração em geração. E assim permitimos que esses ditos passem e se perpetuem no papel, no que lemos no dia-a-dia, normalizando e relativizando as ideias mitológicas da mulher do passado e permitindo que se infiltrem na nossa própria vida como sendo algo comum e perfeitamente aceitável.

Existem muitos livros sobre este tipo tóxico de romantismo e confesso que não li muitos até hoje. Desisti de ler romance contemporâneo depois de ter lidos dois que giravam em torno do abuso psicológico, físico, privação de direitos, onde a autora leva os personagens a apaixonarem-se, um no papel de dominador, outra no papel de submissa, mas não seguindo um contrato ou regras de BDSM, agindo assim, pelo prazer de infligir dor e tormento psicológico sobre outrem. A personagem feminina fica assim despojada de qualquer resquício de liberdade ou independência, vivendo tão somente para aquele romance que a intoxica e prende. Viver em função de alguém não é saudável e tão pouco deve ser aplaudido ou respeitado.

Para servir de exemplo e nos debruçarmos mais profundamente sobre o assunto vou especificar a quais livros me refiro e farei, assim, uma espécie de análise sobre o que é preciso mudar no panorama romântico literário.

Um Desastre Maravilhoso de Jamie McGuire

Admito à partida que eu não li este livro, mas estava tentada a comprá-lo, então li bastantes avaliações e vi vídeos de avaliação no YouTube, onde gostei particularmente deste, da booktuber Samantha do canal Thoughts on Tomes.
A sinopse esclarece o seguinte:

BOA RAPARIGA
Abby Abernathy não bebe, não pragueja e trabalha muito. Abby acredita que está enterrada no nefasto passado, mas, quando entra no colégio, os seus sonhos de ter um novo começo sofrem um desafio numa noite.

 

MAU RAPAZ
Travis Maddox, sensual, bem-constituído e coberto de tatuagens é exactamente o que Abby precisa – e quer – evitar. Ele passa as noites a ganhar dinheiro num clube de combate e os dias no conhecido colégio Lothario.

 

DESASTRE IMINENTE?
Intrigado pela resistência de Abby ao seu charme, Travis entra na sua vida por uma aposta. Se perder, deverá viver em celibato durante um mês. Se Abby perder, terá de viver no apartamento de Travis por um período semelhante.

 

OU O PRINCÍPIO DE ALGO MARAVILHOSO?
De qualquer maneira Travis não faz a mínima ideia de que encontrou uma parceira de jogo à altura. Ou será o princípio de uma relação obsessiva e intensa que irá conduzi-los a um território inimaginável…

À partida dá para perceber que se trata de um “romance” problemático, de dois jovens que não podiam ter passados mais distantes. Porém, ouvindo o vídeo que mostrei acima, e lendo algumas avaliações no Goodreads fica claro que este romance é muito mais perigoso e avassalador do que nos faz crer à partida. Não nos esqueçamos que é um livro escrito para adolescentes e o cérebro de um adolescente está em evolução e absorve muito do que é emitido no meio onde cresce, como já especifiquei acima. Procedam com cuidado, vou lançar alguns spoilers em relação ao livro para poder esclarecer o meu posicionamento quanto ao tema.

Lendo algumas críticas, as que receberam mais respeito como sendo fidedignas e uma boa análise do que se passa por baixo do óbvio, são, curiosamente, as que receberam uma avaliação medíocre.
A leitora Sofia. refere uma situação em que Travis destrói o seu próprio apartamento quando se apercebe que Abby o abandonou, revelando uma personalidade volátil e explosiva. Chega mesmo a referir-se a ele como perseguidor: uma pessoa obcecada com outra ao ponto da insanidade. Passa também a alertar às adolescentes que “isto não é um comportamento normal!”

“Ele é lindo de morrer, é perigoso, é sensual, deseja-te mesmo que sejas o mais comum possível e o que sente por ti vai para além das palavras: Edward Cullen, Christian Grey, Patch Cipriano, Kellan Kyle, Travis Maddox, Damen Auguste ou Dimitri Belikov, são todos iguais!
Meninas, ninguém vai ver-vos a dormir, proibir-vos de visitar os vossos amigos ou tentar matar-vos porque vos amam demasiado porque isso NÃO É o que as pessoas normais fazem!”

Para não mencionar, todas as mulheres no livro que não sejam a personagem principal e a melhor amiga são, passo a citar, “galdérias”, “cabras” e “putas”, isto considerado pela Abby, a protagonista. O retrato físico de Travis não corresponde minimamente à vida que ele leva, que é uma de descuido, desleixo, e mesmo assim consegue manter o seu físico como se se tratasse de um culturista. Parecendo que não, isto levanta falsas ilusões e expectativas irrealistas do homem perfeito. Até agora, apenas vemos red flags, e as adolescentes consomem-nas vorazmente.
Abby continua a forçar-se e a colocar-se em situações que detesta e está sob constante stress, tudo porque a adrenalina do perigo fala mais alto. A razão pela qual ela se envolveria com alguém que está constantemente a dormir com “pêgas cheias de DSTs e acéfalas” passa-me completamente ao lado, mas continuemos.

É natural nós querermos ler sobre situações nas quais não nos colocaríamos na vida real. É vicariante, excitante, intoxicante. Mas onde se delineia o limite entre o que é um conto ficcional que não passa disso e um contorno que começa a alastrar-se na forma como pensamos? Isso é ditado pelo grau em que nós e, principalmente adolescentes, podemos ser influenciados. Um adolescente tem, acima de tudo, influência de casa e do que vê na internet, e posso dizer desde já, tanto pode ser bom como mau, e a probabilidade de ter recebido más influências na internet é bastante grande. Não obstante, este livro serviu de exemplo para percebermos as ideias que são sugeridas aos adolescentes do que é o romance perfeito.
Para ter uma noção de que isto realmente acontece, basta ir a qualquer página do Facebook sobre literatura contemporânea e Jovem Adulto que ficamos a perceber qual seria o par literário perfeito de muitas adolescentes:

Um exemplo prático das redes sociais. Embora nem todos sejam intrinsecamente maus, alguns são problemáticos.

Depois de chegarmos à óbvia conclusão de que algo tem de mudar sobre a informação à qual os adolescentes e muitas mulheres mulheres são expostos, fica a questão: quais são as obras que adolescentes podem ler, já disponíveis, para criarem uma mentalidade saudável acerca do romance e da vida sexual dos mesmos?

Livros que já li ou que já ouvi falar baseados em personagens fortes que não dependem de outrem para sobreviver e que vivem um romance saudável (ainda que possivelmente conturbado):

Que obras vocês aconselham? Aguardo nos comentários.