Análise: Viver Para Contá-la

Viver Para Contá-la
Viver Para Contá-la de Gabriel García Márquez
Avaliação: 5 de 5 estrelas

Acho que todos os leitores deviam ler a autobiografia dos seus autores favoritos. Abre uma perspectiva tão grande, nova e excitante sobre os limites de pensamento do autor, que tudo aquilo que lemos e parecia não fazer sentido, passa a fazer.

Dito isto, Viver Para Contá-la começa com uma visita da mãe de Gabriel para irem juntos vender a sua antiga casa onde morara com a família. Embora pareça um evento trivial e sem interesse, é aqui que se despoleta um dos momentos de insight mais importantes de literatura não só colombiana, mas mundial, onde Márquez percebe como escrever a obra que precedeu Cem Anos de Solidão, La Casa, que com muita tristeza ficou mais tarde perdida numa editora colombiana que o rejeitou. Porém, isto foi a rampa de lançamento para êxitos de prateleira como O Amor nos Tempos de Cólera, O General no Seu Labirinto, a colectânea Olhos de Cão Azul, Crónica de uma Morte Anunciada e outros títulos menos conhecidos.

Tal como acontece nas suas obras de ficção, a sua autobiografia é escrita no mesmo tom quase informal, ainda que com um vocabulário vasto e coeso, recorrendo a palavras certas que de outra forma seriam coloquiais e preguiçosas. Alguns dos seus testemunhos são recolhidos de amigos e conhecidos, mas a grande maioria provém da sua excelente memória de escritor que sempre teve uma grande fixação pelos contos, relatos e histórias que ouvira desde o berço.

O realismo mágico das suas obras, que a muitos parece ridículo no sentido negativo, toma forma e vida diante dos nossos olhos neste livro. Entendendo o mundo do autor passamos também a entender o que desencadeou a sua forma de escrever, o vocabulário, de onde retirou a inspiração que coloca em papel. E tudo passa a fazer sentido quando lemos a sua autobiografia. Viver na Colômbia é, em si, uma experiência surreal.

Não deixo de acrescentar que sou suspeita para falar do autor que considero o meu favorito e que, embora soe algo pretensioso e apaixonado, duvido que apareça alguém que o substitua. A grande maioria dos leitores dirão que têm centenas de autores e livros favoritos, mas, no meu caso, Gabriel García Márquez já é há mais de dois anos o meu eleito, e não será fácil reverter isso.

Aconselho esta leitura a quem realmente admira o autor e quer experimentar a sensação do que é viver dentro da sua cabeça, perceber a sua paixão pelas palavras desde tenra infância, a sua descoberta do jornalismo, a resignação em estudar uma profissão para a qual não tinha vocação, o sentido de obrigação de escolher uma facção política em plenos confrontos partidários e a sua perspectiva de autor sobre outros autores que ele lia com sofreguidão.

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  • Maneiro Íris, já está na minha lista de leituras para esse ano 😀

    • Íris Santos

      Não sei se já leu outros livros dele. Mas enfim, é o tipo de livro que é ótimo de ler para quem fala uma língua latina. Não só pelo realismo mágico mas também pela forma como escreve. Tenho pena de quem só pode ler em inglês, ahah.
      É quase a mesma pena que sinto por não poder ler Dostoyevsky ou Tolstoy em russo.