Análise: Throne of Glass

Throne of Glass de Sarah J. Maas
A minha avaliação: 4 de 5 estrelas

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Estaria a mentir se dissesse que não adoro uma boa demonstração de girl power. É óbvio que se trata de ficção, e ficção para jovens adultos. Independentemente do género, normalmente eu fujo a este tipo de histórias porque já sei que vai cair nos típicos clichés que já li e vi nos filmes uma e outra vez: situações e ajudas convenientemente colocadas nos lugares certos para evitar que o protagonista morra antes que a história aconteça, triângulos amorosos onde sabemos que a maior parte dos leitores vai torcer por um e esquecer o outro, onde a personagem principal parece ser perfeita em tudo o que lhe compete fisicamente, sendo a sua única fraqueza a nostalgia e memórias dolorosas do passado.

Celaena Sardothien é uma assassina, a melhor da sua estirpe, treinada por um assassino incomparável e implacável. Ela vive da morte de outros, mas tudo acaba quando ela comete o erro de ser apanhada. Enviada para as minas de sal de Endovier, Celaena passa uma um ano de fome, escondida na penumbra das montanhas sem nunca ver a luz do sol, até ao dia em que é escolhida como campeã seleccionada de Dorian, filho do rei do Trono de Vidro. O rei pretende encontrar um campeão que seja frio, calculista e implacável para a sua defesa pessoal, e Dorian acredita que não existe melhor do que Celaena. Ela é então transportada para o Castelo adjacente ao Palácio de Vidro para começar a treinar e entrar em combate com outros 22 criminosos que lutam pela liberdade que vem com o desafio de se tornarem assassinos pessoais do rei. Celaena vê-se a braços com a falsidade que ocorre na corte do Palácio de Vidro e com a sua paixão por Chaol – capitão da Guarda Real, e Dorian, Princípe do Trono de Vidro.

Esta história marca todos estes clichés e mais alguns que não me dei ao trabalho de assinalar. Eu acredito que sou uma leitora bastante selectiva e esquisita. Não gosto de sentir que estou a ser ludibriada por um autor preguiçoso que atirou um osso a um cão esfaimado, sendo, neste caso, o osso as histórias que lemos, como se fossem o último livro que leríamos na vida. Para um autor merecer o mérito, ele tem de fazer o nosso tempo valer a pena. E por isso é que dei quatro estrelas, mesmo passando na inspecção dos clichés (isto deveria se tornar prática recorrente, quem sabe, não é má ideia). O livro tem uma história que apela facilmente às pessoas que gostam de ver as mulheres mais representadas como heroínas de capacidade física e não apenas heroínas que sofrem caladas na opressão do quotidiano. Celaena – já lá vamos inspecionar este gimmick irritante de nomes que poderiam ser escritos na sua forma original – Sardothien é a heroína que é boa a tocar piano, a matar, a reconhecer venenos, a usar variados tipos de armas, a dançar a valsa e a trocar as voltas aos homens mais giros e influentes do Palácio de Vidro (salvo o rei, esse ninguém o atura). Falo com uma pitada de maneirismo adolescente porque quando leio estes livros sinto-me adolescente novamente.

O gimmick do qual falei, os nomes, é mais uma espécie de cliché que achei incrivelmente desnecessário pelo facto de que, apesar de estarmos a falar de um reino que não existe no mundo visível, a autora decidiu usar variações de nomes na vida real. Por quê Celaena e não Selena? A entoação é exactamente a mesma. Para ser um nome estranho, deveria inventar um nome estranho de raiz. São pequenas falhas como esta que me levaram a dar quatro e não cinco estrelas ao livro.

No entanto, o livro também tem pouco de adolescente ou infantil, debruça-se sobre temas que explorados a fundo podem ter um teor bastante adulto ou pouco aconselhável a quem ainda vê a vida de uma maneira menos bipolar. Entre as páginas do livro encontramos temas como a morte de entes-queridos, o abandono, solidão, dureza mental e física, a entrada da mulher na fase adulta, a paixão e a resiliência do espírito humano. Embora seja uma história fantástica, os personagens têm um carácter muito humano e bastante detalhado em contraste com outras obras com um tom mais infantil e despreocupado, quase como se estivessem incompletos.
É definitivamente uma obra que nos mantém agarrados, sempre sabendo como é mais ou menos o final, mas ao mesmo tempo o que nos prende é a forma como o personagem chega ao fim. É viciante, é fácil de ler mas não é de todo aconselhável a quem não goste de um pouco de terror ou violência. No livro existe violência que eu não estava à espera de ler numa obra para adolescentes.

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Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

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