Análise: The Ethical Slut : A Practical Guide to Polyamory, Open Relationships & Other Adventures

The Ethical Slut : A Practical Guide to Polyamory, Open Relationships & Other Adventures
The Ethical Slut : A Practical Guide to Polyamory, Open Relationships & Other Adventures de Dossie Easton
A minha avaliação: 4 de 5 estrelas

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Quando comecei a ler The Ethical Slut confesso que esperava algo completamente diferente.
Eu gosto de diversificar tanto quanto possível as minhas leituras, acho uma forma vicariante de experimentar várias realidades, várias perspectivas e pontos de vista; obriga-me a exercer empatia e compreensão, por assim dizer.

AVISO: Este livro fala sobre temas que podem ferir a susceptibilidades de algumas pessoas.

Quem viveu sob o jugo social de que a monogamia é o melhor para todos, pegar neste livro à partida dá-nos a sensação de ser contra-natura, de estarmos a ir contra os nossos instintos de deixar o livro encostado a um canto a coleccionar pó. Eu também senti isso quando decidi começar a lê-lo, mas sabia que iria aprender algo de novo. Porém, aprendi muitas coisas e, uma delas, que é insubstituível, é a compreensão, o insight de que a humanidade não tem motivo para temer entregar-se àquilo que é próprio da sua natureza.

O ciúme é próprio de uma sociedade que vive restringida por regras, ordens, legislações, artigos, costumes e ideias tão velhas que remontam à era vitoriana, principalmente. Acreditamos que o amor é limitado, deve ser canalizado para uma pessoa com a qual devemos escolher viver para toda a vida, mais ninguém. A isto, chamam Dossie e Janet, a economia da fome; acreditamos que não existe uma fonte inesgotável de amor e desejo sexual, que tudo tem de ser medido, que devemos escolher a dedo uma única pessoa na nossa vida que merece essa fonte limitada e preciosa de atenção, amor e sensualidade. Felizmente, não existe nada tão ilimitado na nossa limitada vida como o amor e o sexo. Nós impomos limites, mas somos capazes de muito mais.

Para que eu possa dar a entender exactamente do que estou a falar – e creio que num livro de não-ficção isto não seja spoiler, leiam algumas das ideias subversivas que o livro oferece (e que fazem sentido se decidirem abrir a mente a isso):- O ciúme é uma máscara para sentimentos negativos como a possessão, a raiva, a mágoa, a agonia, a tristeza e o medo de abandono. A única forma de lidarmos com ele é permitirmo-nos senti-lo enquanto tentamos desvendar a sua origem.

  • – É possível amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo. Todas com o seu valor intrínseco.

    – Numa relação onde as pessoas falam abertamente de desejo, sexo, fantasias e amor não existe espaço para a traição e para mentiras. É libertador e de um valor imensurável. Ninguém se sente culpado por desejar ou amar outras pessoas.

    – Mesmo numa relação aberta existem regras e acordos a serem estabelecidos para que ambas (ou mais) partes estejam de acordo e satisfeitas com o resultado.

    – Não é por se estar numa relação aberta que temos de estar abertos a tudo. Algumas pessoas gostam de experimentar mais (como sexo em grupo, orgias, sexo com pessoas de um género que não tinham experimentado antes), e outras menos. Não existe fórmula correcta. Toda a gente quer algo diferente e as pessoas devem estabelecer o que pretendem dessa relação.

    – É possível ter um casamento com mais de duas pessoas, embora na maior parte das sociedades isso não seja cultural ou legalmente regulamentado.

    – É possível sermos amigos dos nossos ex-namorados, ex-maridos, ex-amigos.

E muito mais coisas. A jornada para nos libertarmos da ideia fechada e restrita da monogamia (que é tão válida quanto a não-monogamia desde que não seja forçada sobre ninguém e seja escolhida conscientemente) é longa, exige sofrimento pois ele está sempre implicado naquilo que envolve uma mudança de paradigmas. É uma caminha interessante, destrói barreiras e dá lugar à compreensão, ao entendimento de que o amor, a amizade e o desejo sexual não são compartimentados mas sim extensões do mesmo sentimento que são manifestados de formas diferentes. Nada no mundo é a preto e branco, por mais que isso nos facilite a nossa vida, mas sim uma nuance de todos os tons neutros que possamos imaginar e mais alguns. Nada nos enriquece mais como entender que as possibilidades enquanto ser humano são praticamente infinitas.

Mas este livro não é apenas sobre amor, amizade e sexo. Leva-nos a ver as coisas sob uma luz completamente diferente. Os nossos posicionamentos, que podiam até então ser radicais, tornam-se mais frouxos, mais livres e sentimos um alívio por entender que não somos obrigados a sentir fortemente sobre nada, tudo é uma questão de perspectiva e de compreender o que sentimos e por que o sentimos.

Dei quatro estrelas porque existem algumas perguntas que ficaram por responder que eu, espero, as autoras respondam nas próximas edições, tais como lidar com um casal onde um é monogâmico e outro não e como uma pessoa monogâmica se pode ir lentamente adaptando a uma nova visão (embora este livro em si já faça isso bastante bem).

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  • António Adriano Gueifão Estevinha

    Adorei a sua análise…
    Vou ler o livro pelo interesse que as suas palavras despertaram em mim.
    Obrigado.

    • Íris Santos

      Fico grata pelo comentário. Boas leituras!