Análise: Música para Camaleões

Música para Camaleões
Música para Camaleões de Truman Capote
A minha avaliação: 4 de 5 estrelas

Comprar aqui o livro (em inglês).

Música Para Camaleões foi o primeiro livro que li de Truman Capote. Definitivamente não é a melhor escolha para débutant de um autor, mas fica-se sabendo se é o estilo de narrativa e escrita que nós apreciamos.

Num sentido de humor único, por vezes sarcástico, por vezes um pouco cruel e sagaz, Capote conta vários episódios da sua vida atribulada de escritor e viajante.

O prefácio é, provavelmente, o que mais gosto no livro. Explica o fervor que Capote sempre sentiu pelas palavras e como a escrita sempre fora parte dele desde tenra idade, como quem aprende a respirar. É um testemunho que nos aproxima dele e nos leva a compreender melhor os contos que são lidos a seguir.

O livro está divididos pelos contos, sendo o primeiro que dá nome ao livro, Música Para Camaleões, que conta uma conversa que quase dá a sensação de ter acontecido num universo paralelo, onde os camaleões se juntam em torno do piano de cauda para ouvir a dona tocar. Sim, os camaleões gostam de música.

Com um laivo de quem aprecia thrillers e policiais, Capote conta várias vezes sobre situações onde se viu envolvido com a polícia, dentre as quais, uma em que fugiu a esta para não fazer o seu depoimento enquanto testemunha numa audiência no tribunal, entrando assim numa aventura digna da sua própria ficção.

As situações inusitadas pelas quais Capote passa são definitivamente as minhas preferidas do livro, tais como as conversas de teor sexual que tem com Marilyn Monroe numa capela após o funeral onde também lhe confessa as suas inseguranças enquanto mulher; um bordel onde uma mulata serve cerejas em natas regadas a bebidas espirituosas pela vagina; ou uma velha senhora que mantém os seu gatos mortos congelados como uma lembrança do seu amor por eles. Duas passagens que se destacaram para mim:

GEORGE: Mas recebi uma resposta ao meu bilhete de agradecimento. Uma longa carta. Senti-me completamente perdido. Ela juntou um retrato de se própria. Uma Polaroid a cores. Estava de fato de banho, parada numa praia. Talvez tenha doze anos, mas parecia ter dezasseis. Uma rapariga lindíssima, de cabelo preto, curto, aos caracóis, e uns olhos incrivelmente azuis.
TC: Há aí laivos de Humbert Humbert.
GEORGE: Quem?
TC: Nada. Uma personagem de um romance.
GEORGE: Eu nunca leio romances. Detesto ler.

Alguma vez ouviste a história que ele contava do Jesse James? Parece que, certa vez, o Jesse James estava a assaltar um comboio lá no Oeste. Ele e mais o bando entraram de rompante numa carruagem de pistolas em punho, e o Jesse James grita assim: «Mãos ao alto! Vamos roubar todas as mulheres e violar todos os homens!» Vai daí, um fulano replica: «Por acaso não se enganou, Mr. James? Não queria dizer roubar todos os homens e violar todas as mulheres?» Mas na carruagem ia um maricas baixinho, todo meloso, que grita logo na sua vozinha: «Mete-te na tua vida! Mr. James sabe muito bem como é que se assalta um comboio!»

É um livro que entretém e gostei bastante de ler. É divertido, escrito numa narrativa fluida mas tipicamente americana e com um sentido de humor que só cabe aos de mente livre e com uma tendência para o niilismo. Embora o timbre da sua narrativa não seja dos meus preferidos, foi uma leitura bastante agradável.

Ver todas as minhas análises

Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

%d bloggers like this: