Análise: Difficult Women

Difficult Women
Difficult Women de Roxane Gay
A minha avaliação: 4 de 5 estrelas

Comprar aqui.

Difficult Women é composto por um conjunto de contos sobre os mais variados tipos de mulheres: mulheres gordas, mulheres magras, mulheres atléticas; mulheres altas, mulheres baixas; mulheres negras, brancas e asiáticas; mulheres que traem, mulheres que são traídas, mulheres que fazem ambos; mulheres traumatizadas, mulheres que foram violadas; mulheres sensíveis, mulheres insensíveis; mulheres livres, mulheres em cativeiro físico e psicológico; mulheres amargas, mulheres melancólicas, mulheres danificadas; mulheres femininas, mulheres masculinas, mulheres incertas.

Qualquer mulher em algum ponto vai se identificar com alguém neste livro, porém, não necessariamente com apenas uma das personagens. Eu vejo fragmentos da minha personalidade e comportamento espalhados por várias personagens diferentes no livro. Um autor que saiba criar essa empatia com o leitor, que conheça os meandros e profundezas da alma humana, merece todo o mérito. Roxane Gay foi mais além na narrativa de ficção, conseguindo cativar não apenas a atenção mas os sentimentos das leitoras.

Faltou, no entanto, falar das mulheres seniores. Não acho que tenham ficado devidamente representadas nesta obra. Dá a sensação que uma mulher para de ser mulher a partir da terceira idade, e que perde todas as preocupações típicas da sua feminidade por não ter mais um útero viável. Existem muitos assuntos relacionados com este tipo de personagem que Gay falhou seriamente em mencionar. É o grande defeito desta obra.

Ao longo dos diferentes contos existem alguns elementos que também se repetem e se tornam maçadores, como a caça, sexo (nada errado com isso, apenas creio que foi usado em excesso para manter os leitores cativados), comportamentos erráticos e de desesperança que fizeram com que o livro em si não parecesse tão caótico e variado como a autora queria, mas que deu a entender que tinha, na verdade, um fio condutor que ligava as histórias e as tornava mais maçadoras do que o suportável, quase como se no fundo todas as personagens fossem a mesma.
Passo a citar (traduzido no meu português) algumas passagens que gostei ou com as quais me identifiquei – deixo isso ao vosso critério:

“Ela tenta caminhar nem muito rápido nem muito devagar. Ela não quer atrair sobre si nenhuma atenção. Ela finge não ouvir os assobios e piropos e os comentários lascivos. Por vezes, ela esquece-se e sai de casa com uma saia ou top de alças porque está um dia quente e ela quer sentir o ar tépido na sua pele nua. Pouco depois, ela lembra-se. Mantém as chaves em mão, três delas a postos entre os dedos, como uma garra improvisada. Ela faz contacto visual apenas quando necessário, e se um homem a apanhar a olhar, ela levanta o queixo em frente, certificando-se que a linha do seu maxilar é forte. Quando sai tarde do trabalho, ela chama um táxi, e quando o carro para em frente à sua casa, ela rapidamente dá uma vista de olhos pela rua para ter a certeza que está segura até chegar à porta de casa. Uma vez ela contou ao namorado estes acontecimentos e ele disse:
– Estás completamente louca.
Ela contou a uma nova amiga no trabalho e ela disse:
– Querida, não és louca. És uma mulher.”

 

“A morte das raparigas torna-as mais interessantes. A morte torna-as mais bonitas. Existe algo de curioso sobre os seus corpos em exibição no repouso final – olhos esgazeados, lábios azuis, membros rígidos, pele fria. Finalmente, pode ser dito, estão em paz.”

 

“Uma vez havia um homem. Há sempre um homem.”

 

Por vezes, quando estou embrenhado na floresta, à procura de um novo lugar para cortar madeira, sinto-me como se fosse o primeiro homem a estar naquele preciso lugar. Olho para cima e o arvoredo é tão espesso que mal consigo ver o céu. Fico assustado, mas o mundo, de alguma forma, faz sentido ali. Estar contigo provoca-me a mesma sensação.”

 

“Ela rouba estes momentos para ela porque a sua vida é tão transparente que ela deseja ter algo privado, algo precioso. Ela confeciona estes momentos secretos para ela mesma, que não partilhou e não irá partilhar com o seu marido, que vê demais e ama-a com demasiado cuidado.”

 

“Vivo na Sibéria, eu decido. Sinto-me confortada pelos pensamentos de exílio, consolo frio, meditação, e inspiração nascida da privação emocional. É tudo muito dramático.”

 

“Passámos muito tempo naqueles bosques. Explorámos e fizemos mapas e criámos lugares secretos para nos escondermos. Envelhecemos e os bosques tornaram-se menos um lugar de descoberta.”

 

“Eu fui uma mãe uma vez e tu foste um pai, e nós tínhamos um bebé, ou pelo menos a ideia de um bebé estava a formar-se no meu útero e nos nossos corações. Comprámos livros e procurámos uma casa maior sem contar a ninguém, não porque estávamos preocupados mas porque era maravilhoso ter este mistério perfeito entre nós.”

 

“Quando és o meu tipo de encrenca outros homens conseguem cheirar isso em ti. Eles tentam-te caçar.”

O livro não é perfeito mas é definitivamente uma boa leitura para qualquer tipo de mulher, e eu até diria mesmo para qualquer homem que ainda cai no mito de achar que as mulheres são complexas.
Eu nos acho a todos extremamente complexos e no entanto, no fundo, somos muito básicos e fáceis de compreender. Tudo o que nós precisamos é de abrir um pouco mais os olhos e exercer empatia.
Recomendo, apesar das pequenas overdoses que já especifiquei em cima.

Ver todas as minhas análises

Nota: todos os links para comprar livros em inglês estão associados a uma parceria do Subverso Literatura com BookDepository.com. Uma comissão de 5% de cada compra reverte ao site para apoiar a manutenção do mesmo. Os portes são gratuitos para todos os países.