Análise: A Man Called Ove

A Man Called Ove de Fredrik Backman
A minha avaliação: 5 de 5 estrelas

Comprar aqui o livro.

Ainda não consegui recompor-me do golpe doloroso que foi este livro. Mal li o primeiro capítulo eu já previa que o fim iria ser um suplício a ser superado.

Num bairro suburbano algures na Suécia, vive um homenzinho de 59 anos chamado Ove (pronunciado ‘ô-väh’). Ove é o protótipo daquele nosso vizinho que resmunga com os animais à porta de casa, está constantemente à procura de motivos para reclamar com os outros, procura que todas as regras dos condomínio sejam respeitadas, tal como não estacionar os carros na área residencial e ter a certeza de que as bicicletas ficam igualmente estacionadas no lugar correcto.
Ove é um homem de regras, pragmático, racional e quadrado. A sua natureza silenciosa e taciturna não é compreendida por praticamente ninguém, a não ser a sua esposa Sonja.


“Ele nunca entendeu por que ela o tinha escolhido. Ela apenas gostava de coisas abstractas como música, e livros e palavras estranhas. Ove era um homem inteiramente preenchido de coisas tangíveis. Ele gostava de de chaves de fendas e filtros de óleo. Ele passava pela vida com as suas mãos firmemente enfiadas nos bolsos. Ela dançava.”

Mas por baixo desta fachada rochosa esconde-se um homem terno, com uma história de perda e angústia que só viu reduzida através de uma postura severa e amarga.

A sua vida quieta e rotineira é cortada de rompante no dia em que um casal fora do comum pede ajuda para tirar um veículo recreativo que abalroou a sua caixa do correio. A mulher chamada Parvaneh, uma Iraniana grávida acabada de chegar ao bairro, é o oposto de Ove: explosiva, extrovertida, faladora e imprevisível, mas com um sentido de humor e natureza bem próximos dos de Ove. No silêncio entre as frases expressivas de Parvaneh eles encontram um meio-termo de compreensão e amizade tímida.

Após este pequeno grande acontecimento, a vida de Ove dá uma volta de 180 graus completamente inesperada. Ove só queria, apesar de tudo, morrer. As suas várias tentativas de suicídio provam-se infrutíferas enquanto a sua vizinhança o arrasta para o olhos do furacão que é a vida caótica deles. Ove sente-se como o único que poderá ajudá-los e vai, com o tempo, percebendo que o que mais lhe dá alento é dar alento e apoio aos outros. Todos os dias são bons para morrer e a morte pode esperar, conclui Ove.

O livro é dividido em capítulos que explicam o presente da vida de Ove, alternado com o passado. No passado conta a história da sua vida dura e exigente com um pai calado e conservador, mas muito protector. Conta a forma como conheceu Sonja e como a sua vida mudou a partir desse momento. A felicidade advinda desse encontro é enternecedora e maravilhosa, aquecendo o coração de qualquer leitor.


(SPOILER ABAIXO – PASSAR MARCARDOR PARA LER)

“Tens saudade das coisas mais estranhas quando perdes alguém. Pequenas coisas. Sorrisos. A forma como ela se virava durante o sono. Até mesmo voltar a pintar um quarto para ela.”

No presente é contada a história de como os vizinhos viram a sua vida do avesso, mas para melhor, embora a princípio não pareça.


“[Ele] nunca gostou da sensação de perder o controlo. Ele apercebeu-se ao longo dos anos que era esta mesma sensação cuja maior parte das pessoas gostavam e lutavam por ela, mas quanto a Ove apenas uma pessoa acéfala poderia considerar a perda de controlo um estado invejável.”

Ove, um homem aparentemente sem coração, feito de pedra e metal, também divaga sobre o amor e o conforto que existe na cumplicidade e confiança no mesmo, numa comparação curiosa com casas, que são a coisa favorita dele neste mundo (para além do seu Saab):


“Primeiro apaixonas-te pelas pequenas coisas, deslumbrado todas as manhãs com todas as coisas que te pertencem, como se tivesses medo que alguém entrasse de rompante pela porta para explicar que houve um grande mal entendido e que não é suposto estares a viver numa casa maravilhosa como esta. Depois, ao longo dos anos, as paredes começam a descascar, há lascas de madeira aqui e ali, e começas a amar a casa não tanto pela sua perfeição, mas antes pelas suas imperfeições. Ficas a saber onde estão todos os escaninhos e cantinhos. Como evitar que a chave fique presa na fechadura quando lá fora está frio. Quais tábuas dobram quando são pisadas ou como abrir exactamente as portas do roupeiro sem que elas ranjam. Estes pequenos segredos fazem desta casa a tua casa.”

No fim, o autor tira-nos o tapete do chão e somos encarados com o abismo no qual ele nos deixou (embora já o soubéssemos desde o princípio), e é uma sensação tão avassaladora.

(SPOILER ABAIXO – PASSAR MARCARDOR PARA LER)

“A morte é uma coisa estranha. As pessoas vivem toda a sua vida como se ela não existisse, e ainda assim é um dos grandes motivadores para viver.”

Há livros bons, livros maravilhosos. Este é um livro que é maravilhoso ao ponto de levar uma parte de nós ao fechar da última página. É um livro que nos faz encarar a parede durante minutos que se perdem enquanto temos os olhos marejados de lágrimas.
Chorei, sim, e não tenho vergonha de o admitir. É um dos momentos mais preciosos para uma leitora, quando o autor tem a capacidade e engenho de nos arrancar lágrimas indiscriminadamente.

Ver todas as minhas análises