A Literatura Enquanto Refúgio Emocional

Para quem lê muito, o título desta opinião não é novidade. Mais vezes do que estaríamos dispostos a admitir, a literatura não só serviu de entretenimento como também de um refúgio e resguardo para os abalos da vida; ler não é apenas um prazer, mas também uma maneira de nos compreendermos, de compreendermos os outros, os motivos por trás do que acontece e uma provável solução para aquele lugar negro onde nos encontramos no momento.

Entre a capa e contracapa de um livro encontramos respostas e, até mesmo, mais perguntas que nos provocam e desafiam a pensar para além das dimensões às quais estávamos acostumados. Na ficção e clássicos temos a oportunidade de exercer empatia e temos um vislumbre vicariante da vivência de uma pessoa que só existe naquele entremeio de páginas impressas, mas que é, sem sombra de dúvida, baseada na existência de alguém muito real. Sentimos as suas dores, vivemos através dos seus olhos, discordamos com veemência, guiamo-nos pela sua forma de pensar e tentamos compreender a sua estratégia de tomada de decisões. De maneira muito lenta, livro após livro, apercebemo-nos que a nossa forma de pensar foi desconstruída e expandiu-se, mais abrangente, mais inclusiva e mais compassiva. Pensamos um pouco mais nos outros e pensamos em nós mesmos com um maior espaço para a compaixão, para a compreensão de que somos apenas humanos e que aquilo que sentimos e vemos não é, de todo, uma excepção. Ganhamos uma maturidade que só seria possível obter através dos tropeços e empurrões com que nos deparamos na grande experiência que é viver, embora também estes sejam essenciais. A literatura permite-nos aprender por observação, prever problemas vindouros e os primeiros sinais de um confronto. É quase um manual de sobrevivência emocional. Providencia um consolo enquanto nos guia pela sabedoria daqueles que viveram o mesmo.

Na não-ficção, a provocação acutilante que uma opinião controversa incide sobre nós assemelha-se primeiramente a uma afronta que nos leva a recolhermo-nos no nosso canto, a entrar na primeira fase, a da negação, mas depois lentamente erguermos a cabeça e começarmos a pensar numa nova forma de nos debruçarmos sobre um assunto cuja opinião já tínhamos formado por experiências precedentes. Quando entramos em choque com uma ideia que antes seria impensável e até mesmo escandalosa, o instinto é de usarmos as nossas experiências e opiniões pré-concebidas para nos convencermos (e aos outros) que a nossa ideia é a mais correcta, e sentimos que a nossa forma de viver e pensar está ameaçada por uma nova concepção que desafia os nossos valores mais arraigados. Porém, também na não-ficção, lemos relatos e biografias que nos fazem sentir mais em comunhão com a humanidade, entramos em choque com o que há de pior e melhor no ser humano, com as palavras que fluem do pensamento para o papel e provam que todos sentimos o mesmo e que esta semelhança nos aproxima apesar da distância que existe entre escritor e leitor. A literatura é, no fundo, o legado de celebração da humanidade; a derradeira prova da nossa capacidade de transmitir aquilo que todos pensamos e sentimos para um dispositivo físico intemporal.

Aqui ficam citações literárias que marcam a celebração da vida enquanto fenómeno humano e emocional:

“As coisas mudam. Os amigos vão-se. A vida não pára para ninguém.”
– Stephen Chbosky, As Vantagens de Ser Invisível

“Quão maravilhoso é que ninguém precise esperar um único momento para começar a melhorar o mundo.”
– Anne Frank, O Diário de Anne Frank

“A flor que nasce na adversidade é a mais rara e bonita de todas.”
– Walt Disney, Mulan

“Lembra-te: o momento em que te sentes sozinho é o momento em que mais precisas de estar sozinho. É a ironia mais cruel da vida.”
– Douglas Coupland, Shampoo Planet

“Dói criar desapego. Às vezes parece que quanto mais te apegas a algo ou alguém, mais facilmente se quererá libertar. Sentes-te um criminoso por ter abandonado, por ter desejado. Por ter desejado e sido desejado. Confunde-te porque pensas que os teus sentimentos estavam errados e faz-te sentir tão pequeno porque é tão difícil mantê-los cá dentro quando os libertas e sentes que jamais voltarão. Sentes-te tão abandonado que é inexplicável. Porra, não há mais nada como isto, pois não? Já me senti assim e tu também. Estás a assentir com a cabeça.”
– Henry Rollins, The Portable Henry Rollins

Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

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