A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera

Opinião da obra A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera.

A Insustentável Leveza do Ser

A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera
A minha avaliação: 5 de 5 estrelas

Esta não é a típica obra com um enredo linear e contínuo. É, no entanto, um profundo trabalho de natureza reflexiva e filosófica, que se expande sobre tudo o que significa ser humano enquanto se tenta sobreviver a um regime autoritário.

Embora exista um tumulto lá fora, o acontecimento da obra desenlaça-se no âmago de cada uma delas. Inserido na Checoslováquia (actual República Checa) em luta com o monstro Russo Soviético, esta obra conseguiu estender um fio condutor entre o mundo material e o mundo sensível.

São-nos apresentadas as personagens Sabina, Tomas, Tereza, Franz e Marie-Claude. Todas elas estão conectadas entre elas, mas cada qual com o seu mundo interior e peculiar, que interage com o mundo lá fora. Estas personagens interagem pelos vários estágios de relações voláteis, conturbadas, difíceis de decifrar apenas pelo olhar, enquanto tentam manter-se firmes e sobreviver ao regime comunista.

O principal enredo segue a história de Tereza, Tomas e Sabina, um triângulo amoroso não consentido por Tereza. Tereza é uma mulher insegura, aterrorizada pelo medo da traição, traição esta que acontece diariamente sob o seu nariz. Tomas é um mulherengo inveterado que procura em cada mulher a sua peculiaridade, desinteressando-se nela a partir do momento em que a reconhece, como um presente aberto e descartável. Sabina é uma mulher misteriosa e indecifrável, amante das artes, que procura uma forma de se afastar de tudo aquilo que lhe é familiar, para se despir do passado e das memórias que lhe pesam.

O íntimo de cada um é cheio de indagações, dúvidas, inseguranças, reflexões, questionamentos e observações pertinentes sobre as quais todos já nos debruçámos. O grau de profundidade e conhecimento de Milan Kundera sobre a psique humana é deveras impressionante e maravilhoso.

Sob as invasões do regime comunista sobre Praga, as personagens relacionam-se entre si quase como num casulo; as revoluções ficam lá fora, embora tenham um efeito bastante dilacerante no seu âmago.


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Devido ao seu grau de complexidade, esta não é uma obra para ser lida de ânimo leve. É, antes, uma obra quase de consulta. Ela pede para ser relida. Pede para ser saboreada com calma e muita ponderação. Pede, sobretudo, para que seja lida com maturidade e alguma experiência de vida.

Poderá ser lida em qualquer fase da vida.

Este é um clássico que nos fará sempre regressar e sempre teremos a aprender algo novo a cada leitura, sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia. Torna-nos mais humanos, menos solitários na experiência que é viver neste mundo e neste corpo.

Antes de me despedir, temporariamente, desta grande obra, que não nos chama a atenção com um outdoor ou um altifalante, mas sim com um pequeno sussurro a dizer “por favor, escuta-me”, deixo aqui algumas citações.

“Para Sabina, o facto de ser mulher é uma condição que não escolheu. O que não é efeito de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Sabina pensa que, face a um estado que nos é imposto, temos de saber adoptar a melhor atitude possível. Parece-lhe tão absurdo insurgir-se contra o facto de ter nascido mulher como glorificar-se com ele.”

O que procurava em todas essas mulheres? O que é que o atraía? O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?
De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma ideia de como seria depois de despida (aqui a sua experiência de médico completava a do amante), restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexactidão da ideia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava a sossego. E, depois, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez; vai para além dela: que caras fará enquanto se despe? o que dirá enquanto faz amor? em que tom suspirará? que ricto se imprimirá no seu rosto no momento da volúpia?

A questão também pode ser formulada noutros termos: Será preferível dar um grito que apresse o nosso próprio fim ou ficar calado e comprar uma agonia mais lenta?

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Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

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