7 Livros para a Mulher Moderna

Nunca foi tão importante quanto agora a luta pela igualdade dos géneros. A nossa geração foi precedida por gerações e gerações de mulheres que lutaram, foram para a frente de batalha, sangraram, sofreram e perderam a vida frente ao machismo e desigualdade. A sua união criou a força motriz daquilo que viria a ser essencial na emancipação da mulher enquanto pessoa de plenos direitos e privilégios.

Hoje, já podemos ver que muito mudou para melhor, mas ainda podemos conseguir ultrapassar os obstáculos que amanhã serão apenas parte do passado. Recolhi livros que eu própria li (para evitar más recomendações) e que recomendo a mulheres de todas as origens, culturas, credos, idades e cores. Por um mundo com menos desigualdade e mais união entre todas as pessoas.


Crónica de uma Serva de Margaret Atwood

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Os Estados Unidos da América sofrem um golpe de estado, dando lugar à República de Gilead. Instaura-se uma ditadura cristã onde a comunicação é severamente limitada, estando apenas ao alcance de quem atinge os mais altos cargos na nova hierarquia. Até mesmo a religião passa a ser limitada, permitindo que os fiéis rezem apenas cinco orações da Bíblia para evitar segundas interpretações dos textos. As mulheres encontram-se divididas em castas de acordo com as suas tarefas: as Esposas, do cargo mais alto e privilegiado; as Servas, que trabalham para as Esposas e Comandantes, assim como servem de incubadoras para os seus filhos; e as Econowives, que são as esposas dos homens de menos poder financeiro.

O livro é contado pela perspetiva de Offred, uma Serva que trabalha para a sua Esposa e Comandante. O seu trabalho é garantir que engravida do Comandante, seu patrão, pois a Esposa não pode engravidar, sendo que nesta nova sociedade a maior parte das mulheres são inférteis.

Nesta revolução e mudança drástica da vida a que Offred estava acostumada, vemos a condição da mulher despojada de toda a dignidade e independência. Uma sociedade onde as mulheres são reduzidas à sua fertilidade, um invólucro precioso isento de autonomia. Leiam aqui a minha análise.


The Color Purple de Alice Walker

Celie é uma menina de 14 que é abusada e violada pelo pai, dando origem a dois filhos: uma menina e um menino. Após essa fase de maus-tratos o seu corpo tornou-se infértil. Nunca mais voltou a ver os filhos.

Entretanto, é “vendida” a um marido, Mr — (o nome dele nunca é escrito) que só a quer como doméstica. Celie cresce a ver o mundo e ela própria governada por homens inconscientes das próprias acções, egoístas, arrogantes e inconsequentes.

Ao longo da sua vida vai conhecer Shug, antiga mulher do seu marido, por quem ambos se apaixonam. A natureza de Shug, altiva, determinada mas ainda assim carinhosa e afetiva deixam Celie rendida, depois de toda a violência e indiferença que sofreu por parte dos homens que conheceu.
Enquanto isso, Celie troca cartas com a sua irmã missionária, Nettie, que desbrava o mundo africano liderado por homens machistas que pretendem manter as mulheres da sua tribo na escuridão, sob a sua asa para que os possam servir a sua vida inteira sem saírem do seio familiar.

Esta é uma obra cheia de humanidade, personagens profundamente cativantes na sua simplicidade e complexidade. Celie e Nettie são, neste mundo, pioneiras da descoberta da emancipação da mulher, desbravando o mundo à procura do seu lugar e da sua paz de espírito. Lutam, ainda que inconscientemente, pela igualdade, pelo direito à liberdade e pelo direito a levar uma vida tranquila sem dor, sem violência. Não só fala de violência e racismo, como também fala do amor que floresce entre duas mulheres cansadas e arrebatadas pela brutalidade de uma vida atrelada ao punho fechado dos homens. Leiam aqui a minha análise.


O Segundo Sexo (vol. I) e (vol. II) de Simone de Beauvoir

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Não é fácil colapsar esta imensa obra e marco da literatura do século XX em apenas alguns parágrafos. É uma extensa obra de arte que abarca a vida da mulher tal como ela é, da nascença à morte. Se existe ponto de partida pelo qual alguém deve começar a ler sobre a emancipação da mulher na sociedade, O Segundo Sexo é, sem dúvida, a escolha acertada.

Em quase 900 páginas divididas em capítulos que se debruçam sobre os vários aspetos da vida da mulher, Beauvoir consegue fazer um reflexo fenomenal, detalhado e meticuloso do papel da mulher na sociedade enquanto pessoa maioritariamente desprovida de direitos. Faz distinções na forma como ambos os géneros são tratados a partir do momento da nascença, fala dos mitos e factos da vida da mulher e das suas tarefas domésticas e em sociedade e da forma como até mesmo na mitologia os deuses masculinos tinham sempre uma presença predominante, enquanto a feminina ocupava apenas um papel secundário.

No segundo volume, Simone  explora a fundo as condições físicas, sentimentais, psicológicas e sentimentais das mulheres lésbicas, crianças, adolescentes, jovens adultas, casadas, mães, maduras e idosas, enquanto isso explora também a alma da mulher apaixonada, religiosa e cativa na sua condição feminina.
No fim deste volume ela fala da mulher independente e de, apesar de já se ter conquistado arbitrariamente muita coisa, ainda temos um longo caminho pela frente.

A inteligência, capacidade de raciocínio e entendimento da condição feminina de Simone vão para além da esfera humana. A sua compreensão do ser humano e a sua desenvoltura frásica permitem que este seja um livro de grande reflexão. Mesmo quando um dia já não for um exemplo a seguir pela opressão que ainda existe, será um bom livro para ser estudado nas aulas de história e sociologia. Uma obra intransponível. Leiam aqui a minha análise.


A Cor do Hibisco de Chimamanda Ngozi Adichie

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Chimamanda Ngozi Adichie é um ícone da literatura africana contemporânea. A Nigeriana, ainda na casa dos 20, quebrou barreiras ao relatar em ficção as experiências quotidianas da mulher africana.

A Cor do Hibisco traz-nos a história da jovem Kambili, uma menina nigeriana de 15 anos que vive num lar ostensivo e rico governado por um pai rígido, convertido ao Cristianismo ocidental, que restringe o livre-arbítrio da família a uma rotina extremamente limitada onde tudo se resume a estudar, rezar, comer, estudar e dormir.
Eugene não espera nada menos do que perfeição da mulher e dos filhos. Quem o conhece superficialmente vê Eugene como um homem honrado, trabalhador, religioso e que respeita a integridade e os bons costumes. No entanto, em casa, quando a mulher e os filhos, Kambili e Jaja, mostram que são meros seres humanos com imperfeições Eugene recorre à violência física e supressão psicológica e mental dos seus familiares, tudo em nome de uma fé que ele leva muito a peito.
Kambili conhecia apenas esta vida de restrições quando é levada para a terra da tia Ifeoma, professora universitária que luta com o salário de funcionária pública todos os meses.
Lá ela aprende a desembaraçar-se da intolerância e críticas veladas que a acompanharam durante toda uma vida. Aprende a sorrir, descobre pela primeira vez a paixão e o amor e, sobretudo, descobre o que é uma verdadeira família, o sentido da união e companhia, de nunca estar sozinha e de sempre aprender a falar e a dar a sua opinião. Ganhou uma voz que jamais veria a luz do dia na sua própria casa.

Sendo limitadas de uma ou outra forma ao longo da vida, esta obra prova-nos a capacidade de nos renovarmos das coisas que nos tolhem e nos limitam nas nossas escolhas e vontades. Uma revelação da literatura africana. Leiam aqui a minha análise.


Escravas do Poder de Lydia Cacho

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Do Japão ao Cambodja, da China ao Porto Rico, do México à Rússia, o tráfico sexual de mulheres e crianças é uma prática banal e globalizada que ocorre sob os nossos narizes, destrói famílias, mentalidades, vidas parcamente vividas, levanta barreiras de preconceito e afastamento.

Lydia Cacho, jornalista mexicana e feminista ativa na luta pelos direitos das mulheres, embarcou numa viagem pelo turismo sexual à escala global; recolhe informação e dados estatísticos sobre o lucro de um negócio que vive da apatia e crueldade imposta sobre mulheres e crianças retiradas de países pobres com o propósito de abrir os olhos aos leitores sobre uma realidade muito mais comum do que se pensava. Também ela, enquanto mulher, sofreu ameaça de morte várias vezes, assim como também se colocou na linha de risco para conseguir abordar as mulheres que viviam para lá da barreira invisível e quase intransponível do mercado negro.

Numa linguagem fluida e transparente, Cacho divide as informações por país, pelas experiências das mulheres, advogados, instituições não-governamentais e ativistas que entrevistou e por colegas de jornalismo que lhe concederam informações até antes não divulgadas.
Sendo também mulher, Lydia sentiu-se afetada pelos relatos de caráter obscuro, cruel e tétrico da realidade de mulheres que tinham a sua mentalidade formatada e moldada ao formato imposto por traficantes e proxenetas a que pertenciam enquanto objetos de prestação de serviços sexuais como meros recetáculos de frustrações e expectativas da virilidade do homem enquanto ser masculino numa sociedade que vive de afirmações e aparências. A sua clientela consiste de pais de família, políticos, celebridades, líderes religiosos, atletas e CEOs de grandes corporações industriais.

Considero esta obra sucinta e muito bem construída como um must-have a qualquer pessoa que queira estudar a complexidade do mercado negro dos dias de hoje, assim como qualquer leitor interessado nos direitos humanos e feminismo. Este livro leva-nos a entender a rede de inúmeros braços que se estende a todos os cantos do planeta de onde retira mulheres e crianças e as coloca em bordéis ilegais mantidos sob o disfarce de karaoke bars ou casinos onde esse mesmo lucro da exploração é lavado. Um mundo onde as pessoas são apenas objetos e números à disposição de um qualquer. Leiam aqui a minha análise.


Difficult Women de Roxane Gay

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Difficult Women é composto por um conjunto de contos sobre os mais variados tipos de mulheres: mulheres gordas, mulheres magras, mulheres atléticas; mulheres altas, mulheres baixas; mulheres negras, brancas e asiáticas; mulheres que traem, mulheres que são traídas, mulheres que fazem ambos; mulheres traumatizadas, mulheres que foram violadas; mulheres sensíveis, mulheres insensíveis; mulheres livres, mulheres em cativeiro físico e psicológico; mulheres amargas, mulheres melancólicas, mulheres danificadas; mulheres femininas, mulheres masculinas, mulheres incertas.

Qualquer mulher em algum ponto vai se identificar com alguém neste livro, porém, não necessariamente com apenas uma das personagens. Eu vejo fragmentos da minha personalidade e comportamento espalhados por várias personagens diferentes no livro. Um autor que saiba criar essa empatia com o leitor, que conheça os meandros e profundezas da alma humana, merece todo o mérito. Roxane Gay foi mais além na narrativa de ficção, conseguindo cativar não apenas a atenção mas os sentimentos das leitoras. Leiam aqui a minha análise.

 

 

Mulheres que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés

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Este livro não é uma coletânea de contos; este livro é um manual de sobrevivência para mulheres de todos os credos, cores, idades, tipos e feitios. É uma luz que visa iluminar partes de nós que sempre estiveram presentes mas nunca receberam a atenção devida.
Ao longo de 608 páginas a autora reflete sobre as semelhanças entre a Mulher e a Mãe Lobo, personagens com mais pontos em comum do que normalmente nos lembraríamos. Ensina-nos a profundidade da Mulher Selvagem que existe dentro de cada uma de nós, as ferramentas de sobrevivência à nossa disposição para todos os eventos e como ultrapassar todos os obstáculos que afetam mulheres em geral: educação opressiva, maternidade forçada, supressão dos talentos e aptidões naturais, relacionamentos abusivos, menopausa, idade tardia e morte. Leiam a análise completa aqui.

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Author: Íris Santos

Bibliómana desde o berço, com uma queda para o drama. Criei o meu primeiro blog com 13 anos e dedicava-se mais à escrita de poemas do que à análise dos mesmos. Neste entremeio faço uma pausa na leitura e retomo com fervor aos 22 anos. Hoje, com 25 anos, decido dedicar uma maior parte do meu tempo à análise de literatura nacional e internacional emergente e a importância dos clássicos e da relação da literatura com as tecnologias. Gosto, acima de tudo, ler novos autores emergentes de literatura estrangeira sem nunca fugir a um critério de selecção muito pessoal.

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